O início desta história é feliz. Ela e a Ângela receberam seis cartas cada uma. Todas elas confirmaram que as suas candidaturas para a universidade foram aceites e que podiam escolher. Obviamente Ela escolheu arte. Não que fosse artista. Não tinha arte. Não dominava o desenho. As esculturas eram desleixadas. O teatro não lhe corria no corpo. A dança muito menos. Gostava de ler e escrevia. Mas dava muitos erros. As frases eram curtas e quando não o eram, eram confusas. Mas Ela queria artes.
Ela estava confiante da sua escolha e queria partilhar isso com os seus amigos. A Filipa era a sua melhor amiga. A Mafalda e a Ana eram muitos brincalhonas. E os rapazes eram parvos. O Rui e o Diogo estavam lá. Ambos a devorar os cachorros quentes das festas que nem se aperceberam da chegada dela.
Ela ia confiante. Leva o seu cãozinho de porte médio pequeno. Desce as escadas para a praça para ir ter com os seus amigos e o seu cãozinho puxava para a frente como se tivesse que cheirar tudo antes dela pisar aquele sítio. As miúdas estavam perto da carrinha dos cachorros quentes quando esperavam pela notícia dela, espetantes. Após a boa nova todos a felicitaram apesar de não entender aquela escolha. Ela não sabe arte. Ela não é artista. Mas Ela escolheu a arte.
Ela gostava do Diogo. Foi o primeiro e único rapaz que Ela sempre gostou. Mas apesar de ele também gostar dela, ele nunca se aproximou. Ela apenas esperava. Já o Rui a avançava e Ela deixava.
O cãozinho deixou de puxar. Onde estaria ele? Ele era castanho e tinha duas manchas brancas que apanhavam as patas dianteiras e a barriga. Mas ele desapareceu e ninguém sabia dele. Ela entrou em pânico e começou à procura dele. Todos o fizeram. Juntaram grupos, a Filipa, a Mafalda e a Ana procuraram na praça. Ela e os rapazes foram para a avenida.
Onde estaria o cãozinho, perguntava-se. Enquanto eles procuravam nas barracas da avenida, Ela entrou na confusão. Meteu-se por uma ruela em paralelo e passou a curva grande à procura. Lembrou-se daquele sítio. Tem lá uma escola de condução e muitas árvores de fruto vermelho e suculento. Ela viu o senhor Zé Manel e perguntou pelo seu cãozinho.
Onde estaria ele?
O Zé Manel deu uma resposta estranha e ainda se riu.
“O cãozinho está contigo. Ah ah ah”, gozou com Ela.
O que raio está ele a dizer? Ela não percebia. Ela não percebe arte.
Ela voltou para trás. E viu o Diogo aos beijos com uma rapariga. Que ciúmes. Aproximou-se e viu a rapariga com o seu cãozinho no seu colo e o seu amor. Como se atreve? Ela aproxima-se e o Diogo olhou para ela. Ele fugiu. O cãozinho saltou do colo dela. Mas Ela não o apanhou porque viu a cara da rapariga. Ela era Ela.
Ela aproximou e a rapariga entrou num prédio. Ela seguiu-a. Entrou na sua casa e escondeu-se no quarto. Era escuro e baixo. Tinha uma pequena clarabóia que iluminava muito pouco porque era noite, mas eram as festas e por isso tinham um pouco de luz. Ela viu-a.
O que ela estava a fazer?
A cortar algo. Tinha um bolo e estava a efeitá-lo. Mas seria ela artista? Ela olhou com mais atenção. Oh.
Oh.
Eram dedos com sangue. E escorriam. Oh. Eram olhos e tinham sangue. Oh eram bocados de uma pessoa que efeitavam aquele bolo verde e mal cheiroso.
Espera. Não era um bolo. Eram amontoados. Não cheirava bem.
Oh. Mas eram bocados dela. A rapariga usava aquilo para fazer uma pequena obra de arte.
Oh. Ela viu-se a fazer aquilo. Como seria isso possível? Não estava ainda agora escondida?
Oh. Afinal Ela tem arte. Ela era Ela.
A. F. Dias
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