O carro laranja. O 365 em 365 de 2018

É o último dia do ano e, por isso, tudo é a última vez que se faz alguma coisa. Ela sabia que aquele ano ia acabar juntamente com o dia. Ela aproveitou cada momento.

Ela acordou ao meio dia, porque antes não havia nada a aproveitar. A campainha tocou e o pai sabia que o tio ia chegar com notícias. Mas nenhuma notícia interessava a ela, Tonia, pois só o final do ano interessava no seu mundo egoísta.

Saiu da cama, porque já não tinha nada para sonhar. O som da campainha e a voz do pai e do tio eram fortes o suficiente para mostrar que não era hora de estar na cama e que o dia nascera à muito tempo. Mas não eram os argumentos usados para a envergonhar que a tiravam da cama, mas sim o peso que sentia para se por a pé. Ela ficava muito lenta, mas mesmo assim conseguia ouvir os seus familiares bombeiros. O adolescente desaparecido do incêndio reapareceu, mas a sua família morreu. Ele não tem nada e estava próximo da maioridade… O que iria acontecer com ele? Tonia não sabia o que ia acontecer e não estava preocupada, porque não a afetava. O mundo dela estava protegido pelo egoísmo da adolescência.

Quando Tonia saiu do quarto, não sabia que ia ter na sua cozinha Vicentino, o rapaz que perdeu a família no incêndio. Talvez se soubesse que ele ia estar lá e que era assim bonito tinha se arranjado mais, para poder causar uma boa impressão. Mas isso agora era tarde. Ela viu-o e ele a ela. Vicentino era um novo vício para os seus olhos que não conseguiam deixar de o ver. Ele é mais alto que o pai e o tio. É moreno e tem o maxilar quadrado que salientam os movimentos da sua face. Os lábios grossos que mostravam o seu sorriso malicioso, mas belo. Ele tinha o cabelo comprido e ondulado em castanho escuro que quase lhe cobre os olhos, mas ela viu os olhos dele mesmo assim. Eram escuros e muito brilhantes. A pálpebra inferior cobria parte do olhar por estar a sorrir. Mas não era um sorriso de algo engraçado. Era um sorriso de receção a quem o rodeava. Era um sorriso para receber Tonia.

– Filha, este é o Vicentino, e ele vai ficar cá em casa por uns dias. Não te importas querida?

Tonia estava ainda num transe hipnótico da visão dos seus olhos. Após de uns momentos, ela respondeu que não com a cabeça, sem nunca conseguir fechar a boca.

– Tonia, este rapaz acabou de perder tudo num incêndio. Ele neste momento precisa de apoio. Não o tormentes com o teu temperamento explosivo. Ele precisa de descansar.

Tonia estava feliz apesar da desgraça. Aquele rapaz ia ficar com ela. Mas ela não sabia quem ele era. Durante o almoço iria saber quem era ele.

– Tonia, tenho lá fora o teu presente de aniversário.- disse o seu pai baixinho enquanto ela servia o seu prato. Ela pôs-se a pé e correu para a janela. Mesmo em frente viu o parque de estacionamento com três carros. Um cinza comprido, uma carrinha preta e um Fiat 500 laranja. Ela conhecia os outros carros, menos o cor de laranja. Seria esse carro o seu presente de aniversário?

Tonia olhou para a mesa e viu o seu pai a sorrir. Ele sabia que ela o tinha visto e que ainda não acreditava. O seu tio, que ficara para almoçar, sentia-se satisfeito por não ter reagido mal à chegada do novo colega e, por isso, merecia aquele presente. Tonia saiu a correr para ver o carro. Pegou no porta-chaves com o ursinho prateado e uniu-o à chaves do carro novo. E juntamente com o seu pai, ela foi dar uma volta com o seu presente.

O pai e ela estavam nervosos pela falta de prática de Tonia. Mas mesmo assim, o carro mostrou-se acessível à sua falta de confiança do seu condutor. O estacionamento foi a pior parte, mas lá conseguiu estacionar de traseira. Com toda esta emoção, Tonia esqueceu-se de Vicentino.

O espírito adolescente apenas olha para o que o engrandece aos olhos dos outros. Ainda bem que ela não almoçou. Quando chegou a casa encontrou o seu tio morto no chão da cozinha. Havia sangue até à entrada do quarto de Tonia. O que se tinha passado? Onde estaria o rapaz? Tonia vai devagar para o seu quarto e encontra Vicentino a dormir na sua cama, nu. O chão estava coberto de roupa que ele trazia vestida… E uma faca ensanguentada estava nessa roupa coberta de sangue.

AFDias

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